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Amido

O Amido é um polímero da glicose que constitui um importante material de reserva das plantas, sendo constituído por dois polímeros que diferem na estrutura da molécula: a amilose e a amilopectina. Enquanto a molécula daamilose não é ramificada, sendo constituída por moléculas de glicose unidas por ligações (1,4), a amilopectina apresenta uma molécula compacta com numerosos braços, cada um formado por vinte a trinta unidades de glicoseunidas por ligações glicosídicas do tipo (1,4) e por ligações do tipo (1,6) nos pontos de ramificação.

Tal como os restantes polissacarídeos, grupo de glícidos a que pertence oamido, o amido pode ser hidrolisado, neste caso na presença de um catalizador químico ou biológico. As enzimas que actuam sobre o amido têm o nome de amílases.

É inquestionável a importância do amido na alimentação de vacas leiteiras. Em qualquer sistema de produção, grãos de cereais, em especial o milho, representam a principal fonte de energia em dietas de vacas leiteiras, e o principal constituinte desses grãos é o amido.

Com o aumento da produção média dos rebanhos leiteiros, as vacas têm consumido quantidades cada vez maiores desse carboidrato, o que se por um lado é a principal forma de aumentar a densidade energética das dietas, a fim de atender à demanda produtiva dos animais, por outro representa um risco para a saúde das vacas.

O objetivo deste radar é discutir a utilização do amido como fonte de energia para vacas leiteiras, e apresentar alguns parâmetros e recomendações que têm sido discutidos recentemente por especialistas e pesquisadores.

Não é possível definir um nível ótimo de amido na dieta das vacas. Isso vai depender dos outros ingredientes utilizados, por exemplo, da concentração de outros carboidratos e de proteínas. Também é preciso saber a forma como esse amido se apresenta, definida basicamente pelo método e intensidade de processamento dos grãos.

O amido de grãos de milho inteiro tem digestibilidade muito diferente do amido de grãos de sorgo moídos. Com isso, queremos dizer que cada caso é um caso, ou seja, o nível ótimo de amido varia em função das características dos alimentos utilizados.

Em dietas de vacas de alta produção, em sistemas de confinamento, o amido pode representar até mais de 35% da MS total consumida pelas vacas, sendo que invariavelmente a quase totalidade desse amido vem dos grãos de cereais.

A degradabilidade ruminal do amido é extremamente variável, de menos de 50 a mais de 90%, sendo determinada pela taxa de degradação e tempo de retenção dos alimentos no rúmen. Grãos inteiros têm baixa degradabilidade, sendo que esta aumenta à medida que se intensifica o processamento dos grãos. O milho finamente moído é uma fonte de amido de alta degradabilidade ruminal.

A digestibilidade aparente do amido é cerca de duas vezes superior à digestibilidade da FDN para vacas leiteiras, de forma que sua utilização normalmente aumenta o teor energético das dietas. No entanto, esse aumento pode ser menor do que se espera, pois via de regra quando se substitui fibra (FDN) por amido (concentrado) em dietas de vacas leiteiras, a digestibilidade total da FDN diminui.

Isso ocorre principalmente em função da queda no pH ruminal das vacas que recebem mais concentrado. Por um lado há o ganho energético, e por outro o prejuízo no aproveitamento da forragem. O objetivo é buscar um equilíbrio a fim de maximizar o desempenho dos animais.

Com isso, como fazer para formular corretamente as dietas com relação ao amido? Na verdade os nutricionistas consideram não só o amido, mas todo um grupo de carboidratos que são digeridos de forma semelhante ao amido, chamado de Carboidratos não Fibrosos (CNF). Nesse grupo são considerados além do amido, os açúcares simples, a pectina, ácidos orgânicos e a porção solúvel da FDN. De uma combinação entre resultados de pesquisas e experiências de campo, desenvolveu-se uma tabela prática para uso em formulações de dietas para vacas leiteiras.

Tabela1. Recomendações de carboidratos para vacas leiteiras

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Vale ressaltar que essas recomendações são norte-americanas baseadas nas necessidades de vacas de alta produção. Teores de CNF acima de 45% da MS são considerados excessivamente elevados, sendo que esse limite superior é ditado pela maior possibilidade de ocorrência de distúrbios relacionados à acidose ruminal, resultado do excesso de CHO de fermentação rápida no rúmen, principalmente o amido.

Dessa forma, a determinação da concentração ótima de CNF nas dietas de vacas leiteiras depende de alguns fatores, tais como:

1) Os efeitos da velocidade de degradação do amido sobre a digestão de fibra no rúmen;
2) Características da FDN;
3) Consumo de MS.

Se a degradação ruminal do amido for muito rápida, certamente haverá prejuízo na digestão da fibra. Em nossas condições, em que grande parte das vacas são mantidas em pastagens na maior parte do ano, excesso de fermentabilidade de carboidratos não parece ser um grande problema, mesmo em rebanhos de alta produção, com alta demanda nutricional, pois o alto custo médio dos grãos de cereais em nosso país muitas vezes inviabiliza rações com alto teor de amido.

Além disso, a forma mais comum de utilização do milho é na forma moída, muitas vezes com tamanho médio elevado de partículas, de fermentabilidade não tão elevada.

Outro ponto a se considerar é que o milho brasileiro é de textura dura, sendo menos degradável no rúmen que o amido de grãos americanos. O tamanho de partícula das forrageiras ensiladas também é freqüentemente grande, resultado de falhas na moagem, contribuindo positivamente para a efetividade física da fibra, e minimizando o problema de um possível excesso de CNF.

Além disso, a presença freqüente de grãos inteiros nas silagens também reduz a disponibilidade do amido no rúmen. O alto teor de fibra das forrageiras, associado ao uso freqüente de subprodutos fibrosos nos concentrados, normalmente resulta em rações onde o teor de FDN total é alto e, conseqüentemente, resulta em teor de CNF abaixo daquele capaz de induzir acidose. O maior problema da vaca brasileira não é acidose ruminal, e sim falta de energia, tanto para os microorganismos do rúmen quanto para o animal.

Também interessante é o fato de que a relação ótima entre amido e fibra na dieta depende da efetividade da fibra. Em dietas com teor relativamente baixo de fibra efetiva, que causam naturalmente uma redução no pH ruminal, a inclusão de amido que possibilita maximizar a digestão de fibra não passa de 35% da MS. Já em dietas com teor mais elevado de fibra efetiva, é possível a inclusão de até 40% de amido na MS, sem grande prejuízo à degradação da FDN.

Um estudo recente bastante interessante (Beckman & Weiss, 2005) mostrou que a queda na digestibilidade da MS e da energia que ocorre com a redução na inclusão de amido à dieta de vacas leiteiras pode ser compensada, pelo menos em parte, por um aumento de consumo das dietas com mais FDN, desde que essa fibra seja de alta digestibilidade.

Dessa forma, mesmo com menor diferentes teores de amido, o consumo de energia entre as dietas comparadas no trabalho foi equivalente. Nesse ensaio os níveis de amido variaram entre 25,4 e 33,3 e os de FDN entre 24.7 e 32,2% da MS total das dietas. Isso mostra que quando o volumoso é de alta qualidade, não há necessidade de se utilizar quantidades elevadas de grãos.

Esse é o mesmo princípio em que se baseia a substituição dos grãos de cereais por concentrados fibrosos, que são pobres em amido, mas bastante ricos em fibra altamente digestível, como é o caso da casca de soja, farelo de glúten de milho e farelo de trigo.

Logicamente as características desses subprodutos são muito diferentes, e isso precisa ser considerado quando se formula dietas para vacas leiteiras. Com isso em mente, em dietas que levam subprodutos, os níveis de amido podem ser sensivelmente reduzidos, sem prejuízo ao desempenho dos animais.

O trabalho de Carmo (2005) mostrou claramente que a combinação de fontes energéticas ricas em fibra digestível com fontes de amido pode resultar em dietas contendo 25% de amido na MS, que sustentem maiores produções de leite do que dietas compostas exclusivamente com fontes amiláceas, com teor de amido em torno de 30%.

De tudo o que foi exposto neste radar, podemos ficar com as seguintes mensagens:

Em dietas de vacas de alta produção, a alta inclusão de amido (acima dos 30-35% da MS total) aumenta o teor energético da dieta, mas pode colocar os animais em risco de acidose, o que vai reduzir o CMS, de forma que a ingestão de energia fique comprometida.

Quanto maior o teor de fibra efetiva, mais espaço há para se utilizar grãos de cereais, já que nessa condição o animal produz mais saliva, o que equilibra melhor o pH ruminal, prevenindo quedas drásticas no consumo.

Quando de utiliza subprodutos fibrosos, é possível se obter níveis elevados de desempenho mesmo com baixa inclusão de amido (abaixo de 25% da MS total). No entanto é preciso equilibrar bem a dieta, e ficar atento às características de cada subproduto.

Em qualquer situação, a qualidade da fibra é determinante do desempenho. Quanto maior a digestibilidade da FDN da dieta, menor a necessidade de inclusão de grãos à dieta. Infelizmente há poucos trabalhos avaliando diferentes teores de amido em dietas de vacas leiteiras mantidas em pastagens, e os poucos dados disponíveis são inconclusivos. De qualquer forma, todos os princípios discutidos aqui são válidos para o manejo alimentar de vacas a pasto, é só usar o bom senso.